27 de fev de 2007

Modos de Ver


Eugénio de Andrade
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Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós
não respondemos,
se alguém nos pede amor
não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão
apodrecidos.
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Jugioli

15 de fev de 2007

Victor Hugo 2


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso
e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo,
que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes,
e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.

E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e
sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,

E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.
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Aquarela: Jugioli
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Contraponto indica um novo participante
Trazendo contribuições de poesias e afins
(acesse para visualizar o link)
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8 de fev de 2007

Victor Hugo



Emergindo de um feixe de luz sem nome eu vejo
Flores monstruosas e rosas amedrontadoras.
Eu sinto que sem intenção escrevo todas estas coisas
Que parecem, no pergaminho cru e trêmulo,
Sair sinistramente das sombras de minha mão.
Por acaso, grande respiração insensível,
Dos profetas, é você que perturba meus pensamentos?
Então para onde estou sendo conduzido neste azul noturno?
É o céu que vejo? Estou eu no comando?
Escuridão, estou fugindo? Ou estou perseguindo?

Tudo se entrega. Às vezes não sei se sou
O cavaleiro orgulhoso ou o cavalo selvagem;
Tenho o cetro em minha mão e o pedaço em minha boca.
Abram-se e deixem-me passar, abismos, golfo azul,
Golfo negro! Silencia-te trovão!
Deus, onde estás me levando?
Eu sou a vontade, mas sou o delírio.
Oh, vôo no infinito!
Às vezes eu digo em vão,
Como Jesus chamando “Lamma Sabacthani”,
O caminho ainda é longo?
Está terminado, Senhor?
Tu me deixarás dormir em breve?
O espírito faz o que quer.
Eu sinto a respiração rápida
Que Elisha sentiu, que o levantou;
E na noite escuto alguém me ordenando que siga!



De Lê germe parfois...”

(O bem às vezes germina), da coleção Toute la lire, publicado em 1888


Contribuição de Jugioli

6 de fev de 2007

Cecília Meireles


Por que me falas nesse idioma?
perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.

Sem qualquer língua.

O sanque sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.

Buzios somos, moendo a vida inteira,
essa música incessante.

Morte, morte.

Levamos toda a vida morrendo em surdina.

No trabalho, no amor, acordados em sonhos.

A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.


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MOTIVO
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno, a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:- mais nada.




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Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901. Concluiu, em 1917, o Curso Normal, e passou a trabalhar como professora primária. Dois anos depois publicou Espectros, seu primeiro livro de poesia, de tendência parnasiana. Seguiram-se Nunca Mais... e Poema dos Poemas (1923) e Baladas para El-Rei (1925), nos quais já aparecem elementos simbolistas. A partir de 1922 aproximou-se das vanguardas modernistas, principalmente dos poetas católicos. Em 1938 ganhou o Prémio de Poesia, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Viagem. Nos anos seguintes, conciliou à produção poética os trabalhos de professora universitária, tradutora, conferencista, colaboradora em periódicos, pesquisadora do folclore brasileiro. Publicou também poesia infantil. A Academia Brasileira de Letras concedeu a Cecília, postumamente, o Prémio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra, em 1965. Faleceu em 1964. »

4 de fev de 2007

Octavio Paz


IRMANDADE

Sou homem:
duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.


(Trad. Antônio Moura)

Enviado por Liana