25 de nov de 2006

Ventana sobre la memoria


I
A orillas de otro mar, otro alfarero se retira en sus años tardíos.
Se le nublan los ojos, las manos le tiemblan, ha llegado la hora del adiós.
Entonces ocurre la ceremonia de la iniciación: el alfarero viejo ofrece al alfarero joven su pieza mejor.
Así manda la tradición, entre los indios del noroeste de América:
el artista que se va entrega su obra maestra al artista que se inicia.
Y el alfarero joven no guarda esa vasija perfecta para contemplarla y admirarla, sino que la estrella contra el suelo, la rompe en mil pedacitos, recoje los pedacitos y los incorpora a su arcilla.(...)

Eduardo galeano

alfarero - aquele que trabalha em olaria; ceramista

Contribuição de Liana

23 de nov de 2006

INVENÇÃO DE ORFEU

Canto I, 26

Qualquer que seja a chuva desses campos

Devemos esperar pelos estios;

E ao chegar os serões e os fiéis enganos

Amar os sonhos que restarem frios.

Porém se não surgir o que sonhamos

E os ninhos imortais forem vazios,

Há de haver pelo menos por ali

Os pássaros que nós idealizamos.

Feliz de quem com cânticos se esconde

E julga tê-los em seus próprios bicos,

E ao bico alheio em cânticos responde.

E vendo em torno as mais terríveis cenas,

Possa mirar-se as asas depenadas

E contentar-se com as secretas penas.

Jorge de Lima

Enviado por Liana

8 de nov de 2006

Poesias Manoel de Barros


Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância, etc. (essas coisas que acham os reveladores de arcanos mentais) Não. Parede que me seduz é de tijolo, adobe preposto ao abdômen de uma casa. Eu tenho um gosto rasteiro de ir por reentrâncias baixar em rachaduras de paredes por frinchas, por gretas - com lascívia de hera. Sobre o tijolo ser um lábio cego. Tal um verme que iluminasse.
Poesia enviada por Liana

3 de nov de 2006

Fragmento de "Altazor" Vicente Huidobro


Do Canto I

(...)

Sou todo homem
O homem ferido sabe-se lá por quem
Por uma flecha perdida do caos
Humano terreno desmesurado
Sim desmesurado e proclamo sem medo
Desmesurado porque não sou burguês nem
raça fatigada
Sou bárbaro talvez
Desmesurado enfermo
Bárbaro limpo de rotinas e caminhos marcados
Não aceito vossas selas de segurança cômodas

Sou o anjo selvagem que caiu certa manhã
Em vossas plantações de preceitos
Poeta
Antipoeta
Culto
Anticulto
Animal metafísico carregado de tormentos
Animal espontâneo direto sangrando seus problemas
Solitário como um paradoxo
Paradoxo fatal
Flor de contradições bailando um fox-trot
Sobre o sepulcro de Deus.

(...)


Trad. Antonio Risério e
Paulo C. Souza

Contribuição: Liana

Dá-me a tua mão

Clarice Lispector

Dá-me a tua mão
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como via a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
-nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.


Poema enviado por Liana
3.11.2006


Entrevista com Clarice Lispector em Contraponto Cinemateca

Poesias

Do desejo

Hilda Hilst

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos,
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo.
Por que não posso Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora

E tudo isso em nós que se fará disforme?


Poema enviado por Liana para reflexões no Contraponto

03/11/06